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Tinta látex com bagaço de cana-de-açúcar

tinta látex com bagaço de canaIdeias simples podem gerar inovações proeminentes. A pesquisa vencedora do 15o Prêmio ABRAFAT
I de Ciência em Tintas é um exemplo que comprova essa teoria. O estudo, que teve a participação do pesquisador recém-contratado pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia (CTBE), Adilson Roberto Gonçalves, mostrou diversos benefícios da adição da biomassa de cana-de-açúcar em tintas látex para a aplicação de texturas em paredes.

A inclusão do bagaço e da palha da cana pode reduzir os custos de produção de revestimentos com texturas como o grafiato, que utilizam aditivos minerais e resinas acrílicas em sua formação. O estudo de Gonçalves atestou que os resíduos abundantes na indústria sucroenergética podem ser misturados às tintas látex e manter a boa aparência do revestimento por longos períodos após a aplicação, diminuir a propagação do som e ampliar sua resistência a chamas.

A ideia inicial do estudo intitulado “Biomassa como aditivo para tinta látex: sustentabilidade ambiental e melhoria nas propriedades acústicas e da propagação de chamas do produto” era simples. “Buscamos criar um dispositivo prático, no qual o pintor compraria uma lata de tinta e um pacote de bagaço, misturaria os dois na proporção adequada e realizaria a aplicação”, explica Gonçalves. Só que ao longo da pesquisa, os pesquisadores descobriram outras qualidades do composto.

O primeiro teste determinou a quantidade máxima de biomassa que pode ser misturada à tinta sem que esta perca suas características de funcionalidade. “Verificamos que uma condição próxima à saturação consistia na proporção de uma medida de tinta para várias de bagaço. Isso pode baratear os custos, pois uma tonelada de bagaço atualmente custa no máximo R$ 100”, comentou Gonçalves.

O segundo teste demonstrou a estabilidade do composto ao longo do tempo, em diferentes formulações: com bagaço in natura, palha in natura, bagaço pré-tratado e palha pré-tratada. Em todas as variantes, o material mantido ao ar livre permaneceu estável por até mais de um ano, sem degradar ou sofrer a ação de fungos. O preparado com bagaço de cana seco e in natura apresentou a melhor aparência visual após o período de testes.

Uma vez definida a composição ótima do material, foram realizados experimentos de propagação de som e resistência a chamas. Descobriu-se que a tinta aliada ao bagaço absorve 5 dB a mais do que o revestimento látex convencional. Já nos testes de resistência à chama, os resultados foram ainda mais significativos. “Esperávamos que o bagaço queimasse rapidamente. Mas tivemos uma surpresa, pois vimos que a tinta comum queima em menos de um segundo, enquanto a adição da biomassa forma um material mais compacto que serviu de barreira à propagação de chama”, conta Gonçalves.

A pesquisa foi desenvolvida na Escola de Engenharia de Lorena (EEL/USP), onde Gonçalves trabalhava até vir para o CTBE, em novembro deste ano. Além dele, participaram do estudo, Alessandro Costa Pinto, Angelo Capri Neto, Fernanda de Carvalho Oliveira e Maria Rosa Capri. O trabalho vencedor do prêmio da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), entregue no final de dezembro, abordou ainda a produção de algumas resinas para o setor de tintas a partir da lignina, um composto fortemente presente (até 30%) na biomassa de cana-de-açúcar.

Aproveitamento industrial da lignina

O aproveitamento industrial da lignina será o tema central dos trabalhos de Gonçalves a partir de agora, no CTBE. Com mais de 20 anos de experiência na área, o pesquisador vai aproveitar a infraestrutura de escalonamento de processos industriais do Laboratório, única no País, para desenvolver rotas tecnológicas de produção de resinas, surfactantes, aditivos para a indústria química e petroquímica, entre outros.

Segundo o pesquisador, nos anos 1970 foram iniciadas pesquisas que visavam decompor a estrutura da lignina de cana-de-açúcar em substâncias mais simples, possíveis de serem empregadas como blocos químicos na indústria petroquímica. O entrave dessa nova área, entretanto, era o alto custo energético dos processos. “De lá para cá, novos catalisadores foram desenvolvidos e baratearam essas tecnologias. Vamos trabalhar no desenvolvimento e aprimoramento desses catalisadores e processos”, explica Gonçalves.