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Novos rumos para a química verde no Brasil

V Encontro da Escola Brasileira de Química Verde reuniu pesquisadores, empresas e instituições de fomento no CTBE.
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Palestrantes Encontro Química Verde

O V Encontro da Escola Brasileira de Química Verde, promovido pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em Campinas-SP, no último mês de outubro, mostrou que o panorama brasileiro da química verde está mudando. Instituições de fomento lançaram grandes editais dedicados à temática, empresas brasileiras e multinacionais começaram a desenvolver e produzir os primeiros compostos químicos oriundos de biomassa renovável e pesquisadores buscam criar novos modelos de desenvolvimento de pesquisa nessa área. O otimismo no futuro do setor perdura, mesmo diante do complexo cenário político e econômico que o País enfrenta.

A edição desse ano do Encontro contou com duas seções temáticas. Uma delas reuniu quatro indústrias químicas que mais investem atualmente em química verde no Brasil, que são: Braskem, Rhodia/Solvay, Dow, Croda. A outra trouxe representantes de quatro grandes instituições de fomento à pesquisa do País, que são: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Na avaliação da coordenadora do evento, a pesquisadora do CTBE Maria Teresa Borges Pimenta, a plenária com as empresas mostrou uma busca por maior sustentabilidade nos processos. Elas estão criando centros de inovação no Brasil por conta, principalmente, da cana-de-açúcar que é uma biomassa com potencial para a química verde e amplamente produzida por aqui. “Ao mesmo tempo, as empresas mostraram que vão apostar nos produtos já definidos, com mercado disponível e boas chances de viabilidade econômica para os novos processos, alterando somente a matéria-prima e a forma de obtenção do produto. No Brasil não devemos esperar que as indústrias químicas paguem pelo “selo verde”, explica Pimenta.

Encontro Química Verde Comitê Organizador

Membros do Comitê Organizador do V Encontro da Escola Brasileira de Química Verde (da esquerda para a direita: Maria Teresa Barbosa, Sindélia Azzoni, Carlos Rossell e Karen Marabezi).

Na sessão das instituições de fomento o destaque foi o Plano de Desenvolvimento e Inovação da Indústria Química (PADIQ), uma iniciativa recém lançada por BNDES e Finep que vai investir R$ 2,2 bilhões durante os anos de 2016 e 2017 para projetos de pesquisa voltados à indústria química. Representantes das duas instituições explicaram detalhes do PADIQ para a audiência, visto que uma das suas linhas se destina a produtos químicos provenientes de fontes renováveis. Os palestrantes também concordaram que precisa existir uma maior conexão entre os instrumentos de fomento das instituições para que bons estudos de ciência básica cheguem ao estágio de produtos comercializados pelas indústrias.

A matéria-prima redefine a engenharia dos processos em química verde

No aspecto técnico, uma das principais discussões do V Encontro da Escola Brasileira de Química Verde envolveu a necessidade de rever a engenharia empregada na produção de blocos químicos produzidos a partir de matérias-primas renováveis. A pesquisadora do CTBE e coordenadora do evento, Sindélia de Freitas Azzoni, explica que, até o momento, o desenvolvimento de tecnologias que utilizam biomassa lignocelulósica para produzir biocombustíveis ou produtos químicos se baseia no uso de operações unitárias e reações de transformação bem estabelecidas. Altera-se apenas a matéria-prima, como por exemplo o uso de biomassa lignocelulósica ao invés de petróleo.  “O problema dessa estratégia é que a biomassa lignocelulósica é quimicamente heterogênea e as frações de interesse para o processo se encontram no estado sólido, o que exige a criação de novos conceitos de processos e de equipamentos para processar com eficiência  as reações em estado semi-sólido ou suspensões. Isto representa uma mudança considerável de paradigma e apresenta uma grande oportunidade para inovação”, informa Azzoni.

Palestrantes como Antônio Aprígio da Silva Curvelo, da Universidade de São Paulo (USP – São Carlos) propõem um mudança nesse formato de trabalho. Para ele, é mais eficaz olhar para as macromoléculas da biomassa e identificar o que pode ser aproveitado para então desenhar processos novos de produção de compostos de química verde, comtemplando essa maior diversidade química. Atualmente, processos que utilizam biomassa lidam com custos mais elevados em operações de downstream e de separação e purificação, ponto a ser trabalhado para melhorar a viabilidade econômica como um todo.