Notícias

Enzimas para degradar diferentes tipos de biomassa

Avanços científicos na área de etanol de segunda geração são apresentados em Workshop do CTBE.
Print this pageEmail this to someoneShare on Google+Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedIn
Workshop 2G Bioethanol

O Workshop on Second Generation Bioethanol 2014, promovido pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) nos dias 10 e 11 de novembro, chegou a sua quinta edição neste ano e contou com diversos palestrantes de renome internacional. Os trabalhos apresentados nessa edição comemorativa apontam para um amadurecimento da comunidade de pesquisa ligada à conversão de biomassa em combustíveis e outros produtos.

Tal evolução científica ocorre em áreas como a produção de enzimas para a degradação do bagaço de cana-de-açúcar e outras matérias-primas. Há alguns anos, boa parcela dos estudos científicos nessa temática se restringiam à identificação e testes com enzimas capazes de converter apenas a celulose da biomassa em açúcares que pudessem ser posteriormente transformados em etanol. Haviam poucos trabalhos sobre outros tipos de enzimas e o nível de sucesso das iniciativas era medido, basicamente, pelo rendimento de açúcar no processo de hidrólise.

Já as pesquisas apresentadas no evento do CTBE desse ano mostram um cenário mais complexo e abrangente. Os cientistas estão interessados em facilitar o acesso à celulose por meio da introdução de enzimas auxiliares nos coquetéis para melhorar a eficiência do processo. Também há um maior interesse em recuperar compostos presentes em outras frações da biomassa, como hemicelulose e lignina, para a produção de blocos químicos de alto valor agregado. Por fim, novas técnicas de prospecção, isolamento e cultivo de microrganismos em laboratório estão em processo de desenvolvimento.

publico-workshop-2g-bioethanol

Público lotou o Auditório do CTBE/CNPEM durante workshop realizado nos dias 10 e 11 de novembro de 2014.

Um dos maiores desafios de quem trabalha na área de conversão de biomassa em etanol e outros bioprodutos é a complexidade da temática. “Ao longo da pesquisa, muitas vezes é preciso lidar, paralelamente, com a  genética e o metabolismo de plantas, com a físico-química do pré-tratamento, com a microbiologia da produção de enzimas hidrolíticas, com a fermentação e com a engenharia ligada aos processos industriais de conversão”, comenta o pesquisador do CTBE e um dos organizadores do Workshop, Carlos Eduardo Driemeier.

Soma-se a essa complexidade, o fato de que o etanol é apenas um dos produtos possíveis de serem extraídos da biomassa vegetal. “De modo semelhante ao que ocorre hoje no mercado do petróleo, percebo que o futuro da indústria da biomassa está nos inúmeros produtos obtidos a partir dela, com valor agregado muito superior ao dos combustíveis”, afirma Sunkyu Park, da North Carolina State University.

O celulossoma a os avanços na pesquisa sobre enzimas

Este ano, o Workshop do CTBE contou com a apresentação de Edward Bayer, do The Weizmann Institute of Science, de Israel. Bayer é um dos criadores do conceito de celulossoma. Estes grandes complexos enzimáticos extracelulares são produzidos por bactérias anaeróbias e são capazes de quebrar polissacarídeos da parede celular vegetal, como celulose, hemicelulose e pectina, em açúcares. O celulossoma possui vários tipos de enzimas organizadas em torno de uma proteína de atividade não-catalítica, que permite a aderência do complexo à celulose. Bayer apresentou no evento o trabalho da sua equipe para compreender a organização e o funcionamento do celulossoma, assim como as tentativas de alteração desse sistema para melhorar a degradação da celulose.

Outro avanço apresentado ocorre nos estudos sobre enzimas acessórias para a degradação da biomassa. “No início da pesquisa, há alguns anos, produzíamos coquetéis com enzimas que agiam principalmente sobre a celulose. Hoje sabemos que outros componentes presentes na biomassa, como hemicelulose e lignina, tornam preponderante a adição de enzimas acessórias para facilitar o acesso à celulose, permitindo uma conversão eficaz com cargas enzimáticas menores”, explica Valdeir Arantes, pesquisador brasileiro que passou os últimos seis anos na Universidade de British Columbia, no Canadá. Arantes mostrou em sua apresentação que é possível produzir etanol celulósico com eficiência a partir de distintas biomassas, desde que o mesmo coquetel enzimático base (que atua sobre a celulose) seja complementado por enzimas acessórias específicas para cada matéria-prima.

Ao final do evento, os coordenadores e palestrantes fizeram um breve debate sobre as próximas ações necessárias para o avanço da ciência básica ligada à produção de etanol de segunda geração. Além dos pontos já destacados, comentou-se sobre a importância dos esforços para se diminuir a ação de inibidores durante os processos de hidrólise e fermentação de açúcares da biomassa. Além disso, Peter J. Punt, da Leiden University, reforça que está na hora de revisar os livros didáticos sobre os temas utilizados pelos cursos de graduação. “Tudo o que vemos neles foi escrito há mais de 10 anos. Precisamos mostrar aos nossos alunos os desenvolvimentos mais recentes do setor”, alerta Punt.